Ela gostava de se pintar. Todos os dias ela se pintava e assim também faziam todas as mulheres do mundo. E ela, determinada e decidida, pintava com afinco o seu olho direito.
Usava um rímel transparente que realçava seus cílios ruivos e tornava seu olhar extremamente sedutor. Seu olhar amendoado era acentuado por uma sombra cremosa que era aplicada na extremidade do olho, num efeito meio esfumaçado. O lápis era usado com perfeição, numa linha contínua que transmitia mistério e causava impacto ao contrastar com o, muito claro, olho verde-água. Era dela o olho direito mais bonito da cidade. Como alguém poderia ter desenvolvido ao longo do tempo técnicas tão precisas e tornar-se a mais admirada e a mais bela? Ela tinha o olho direito mais bonito do mundo. Do seu mundo.
E ninguém questionava.
Não eram poucas as mulheres que tentavam imitá-la. E ora usavam uma sombra vulgar, ora um rímel pastoso demais. E ninguém atingia a perfeição que era dela. A exuberância do olhar fatal: Dela também.
O olho esquerdo? Esse não! Jamais! Não era nem citado porque não era importante. Sua única função era dividir o fardo de enxergar para que o direito não fosse tão sobrecarregado, diziam as mulheres. No mais, ele não merecia ser pintado, pois 'ela' não o pintava.
O olho esquerdo não deve ostentar luxo, era o lema instituído pela mulher de olhar fatal e que era seguido por todo o mundo. Como punição por existir, cobriam-o com um pano preto e saiam ao sol, logo depois arrancavam o pano violentamente e deixavam a mais forte claridade castigá-lo. Aberto. Sempre. Ele não era o olho direito.
E a mulher... Ah, a mulher, aquela que era poderosa, rica, linda, gentil, interessante, inteligente, perspicaz, e tinha o olho direito lindo. E de tão privilegiada por ter um olho direito fabuloso, seu olho esquerdo não sofria com as punições que lhe eram propostas. Resistia sempre muito bravamente.
E ela fez moda, fez fama, arrebanhou mulheres.
Gostava de mulheres. Mas só as que se permitiam ser como ela. E todas se permitiam tentar ser como a mulher cujo olhar parecia penetrar a alma alheia e dela retirar todos os segredos.
Em pouco tempo fez-se uma multidão. Multidão de mulheres belas e olhos direitos pintados. E se achavam o máximo!
Não viam que seus olhares não eram completos e que era tão sofrido o olho esquerdo. Aparentava ser mais velho, mais cansado e não conseguia disfarçar um olhar pedindo piedade.
Mas não o olho esquerdo da mulher. A mais bonita e mais admirada. A única expressão que ele passava era de frieza. Uma certa solidez. E ninguém sabia porque, já que ele sofria das mesmas mazelas em prol do incentivo às outras.
Ninguém sabia o porquê. Ninguém sabia nada. Só a mulher sabia.
Sabia e tinha um ódio incontido misturado a um desejo de vingança.
Apenas por ter nascido cega do olho esquerdo...
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Um comentário:
Que bom que gostou. =D
Também gosto muito dos seus textos que tanto me fazem refletir.
Adorei o último. Sensacional!
Beijo grande.
P.S.: Perdão pela demora em te responder... Dias enrolados esses...
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