Ela se encontrava tão vulnerável nos meus braços que mal pude acreditar que tanto amor tal alguém havia despertado em mim. A minha rispidez encontrou barreiras na fragilidade daquela mulher que, mesmo agonizante, era capaz de me embebedar com seu encanto beirando o sobrenatural...
Eu me perdi em pensamentos, divaguei, levitei. E quando o peso daquele corpo quase inerte e de respiração fraca pareceu me incomodar pensei que havia ali uma dívida de gratidão. Havia a história de um amor que não me deixara sucumbir e havia também uma espécie de ligação que não me deixava fugir, ainda que minhas pernas quisessem.
Mudei-a de posição de modo a melhor acomodá-la e pensei porque a mim cabia tal fardo quando em tempos de vida plena eu nunca havia sido prioridade para ela. E cheguei enfim à situação crítica de confronto entre o dever e o orgulho.
Na iminência de abandonar tudo e voltar às minhas obrigações, mexi-me bruscamente e notei no semblante dela uma expressão de dor profunda, o que me provocou arrepios. E de repente, ela se acalmou e eu me senti mais leve... Então, olhei fixamente cada linha do seu rosto. Meu olhar era inquisidor e buscava explicações. Ela me pareceu incrivelmente bela, ainda que não fosse essa a realidade. Fechei meus olhos e ao reabri-los pude ver uma áurea de brilho numa confusão mental que me abocanhava. Vi que cada linha de seu rosto me dizia uma coisa diferente. Algumas me pediam perdão pela indiferença de anos. Outras diziam que eu era o grande amor esquecido, esperado e ansiado. Ainda em outras eu conseguia ver o quanto ela me queria e me desejava... E eu decidi esperar. Um pouco e mais um pouco, como sempre havia sido. E lentamente,como eu queria fazer desde que a conheci, levantei minha mão e num primeiro gesto de carinho, afaguei-lhe os cabelos... Senti-lhe pulsante e um sopro de vida sacudiu seu corpo. Irônico pensar que era tarde pois eu já me utilizara do seu amor como fonte vital e meu ato de gratidão ia perdendo importância à medida em que a vida vinha lhe corar a face. Eu a preferia completamente dependente de mim.
Enfim, acho que sempre preferi a sua distância...
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário